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Sistema nervoso entérico: não pensa, mas sente

19 novembro DBV - Dicas Bem Viver 0 Comments


O sistema nervoso entérico é considerado o nosso “segundo cérebro”. Nele, há uma complexa rede de mais de cem milhões de neurônios (quase tantos quanto na medula espinhal) que “cobrem” áreas específicas como o intestino delgado e o cólon. Da mesma forma, este sistema é capaz de agir de forma independente com relação ao encéfalo.

Poderíamos dizer que, sem dúvida alguma, essa área do sistema nervoso autônomo, responsável pela regulação dos processos digestivos, é uma das mais interessantes do nosso corpo. Nos últimos anos temos visto muitas publicações sobre essa ideia: considerar o sistema nervoso entérico como o nosso segundo cérebro (embora se possa dizer, é claro, que uma parte da comunidade científica não concorda com essa suposição).

Um dos trabalhos mais conhecidos sobre o assunto é o do Dr. Michael D. Gershon, presidente do departamento de anatomia e biologia celular da Universidade de Columbia. Em seu livro, ‘Segundo Cérebro’, o conhecido pai da neurogastroenterologia desenvolve ideias importantes, como o fato de que 95% da serotonina e 50% da dopamina são produzidos no sistema gastrointestinal.

Agora, se esses dados não fossem surpreendentes por si só, em maio deste mesmo ano a Universidade de Flinders, em Adelaide (Austrália), descobriu algo ainda mais impressionante que foi publicado na revista The Journal of Neuroscience. O sistema nervoso entérico é capaz de gerar atividade elétrica, e o faz com um padrão único e diferente do cérebro.

Saber mais sobre essa estrutura poderá revelar aspectos de nós mesmos que não conhecemos.

“O conhecimento que tínhamos até o momento das funções do sistema nervoso entérico sempre esteve no nível da Idade Média. É o momento de descobrir tudo que ele faz por nós”.
-Michael D. Gershon-

Sistema nervoso entérico: localização e funções


O sistema nervoso entérico é muito extenso. Vamos pensar que ele começa no esôfago, termina no ânus e recobre toda a área do nosso sistema digestivo que tem uma extensão média de 10 a 12 metros. Por sua vez, dentro desses órgãos, como é o caso dos próprios intestinos, existe uma vasta tapeçaria de neurônios, como indicamos no início.

Além disso, outro aspecto interessante é o fato de que esta parte do nosso corpo, além de ser altamente especializada, realiza as suas funções de forma autônoma. E mais, embora se comunique com o sistema nervoso central, é capaz de enviar um grande número de informações ao cérebro. Vejamos mais dados e características.

Sistema nervoso entérico: mais do que processos digestivos

No sistema nervoso entérico há milhões de neurônios, neurotransmissores, vírus e bactérias. Todos esses elementos regulam o nosso bem-estar e a nossa saúde.

Existem três tipos de neurônios nessa região do nosso corpo: neurônios eferentes, neurônios aferentes e interneurônios.

Os neurotransmissores que regulam os processos desse conjunto de fibras nervosas são a acetilcolina, noradrenalina e adrenalina.

Além disso, assim como o próprio sistema nervoso, o sistema entérico também sintetiza a serotonina, a dopamina, os opioides para a dor, etc. Tudo isso faz com que, muitas vezes, seja conhecido como o nosso laboratório químico.

O professor Gary Mawe, médico do Departamento de Ciências Neurológicas da Universidade de Vermont, ressalta que nada é tão complexo e delicado quanto a própria digestão. Devemos considerar que o sistema nervoso entérico determina, por exemplo, quais enzimas digestivas são as melhores para decompor cada alimento.

Ele monitora até mesmo a acidez estomacal, promove a movimentação intestinal e supervisiona o nível das nossas defesas.

Sabe-se até que é capaz de detectar se há alguma bactéria no alimento ingerido. Se assim for, provocará processos como vômitos ou diarreia.


O cérebro, o nervo vago e o sistema nervoso entérico

Como dissemos anteriormente, o sistema nervoso entérico é capaz de funcionar independentemente do sistema nervoso central. Isso é, sem dúvida, algo que pode chamar a nossa atenção porque, como o próprio Dr. Michael D. Gershon aponta, o intestino é o único órgão do corpo que pode funcionar de forma autônoma.

No entanto, em certos momentos, precisa da comunicação essencial com o cérebro. Essa comunicação acontece através do nervo vago.

A comunicação emocional entre o cérebro e o sistema nervoso entérico

Como curiosidade, um estudo realizado na Faculdade de Bioengenharia da Universidade Duke observou que, de cada dez comunicações estabelecidas entre o cérebro e o intestino, 9 partem do cérebro.

Uma das comunicações entre o sistema nervoso entérico e o cérebro é informar quando comer e quando estamos saciados. Isso é feito regulando uma série de hormônios que produzem uma sensação de bem-estar e saciedade.

Da mesma forma, é também este conjunto de fibras nervosas que oferece ao cérebro uma sensação de prazer quando consumimos a comida de que gostamos ou que nos agrada.

Outro fato importante: quando sentimos estresse, o sistema entérico é muito sensível a esse estado e gera mudanças. Assim, o clássico nó no estômago, por exemplo, se dá pelo aumento do nível de sangue nessa área.

Nos últimos anos, diversas pesquisas (ainda não conclusivas) foram realizadas para descobrir como a microbiota intestinal condiciona o nosso comportamento e emoções. Sabe-se que uma flora bacteriana ruim pode afetar o nosso humor, mas os dados ainda não são conclusivos de maneira consistente.


Conclusão

Para concluir, um aspecto deve ser observado. Alguns acreditam que entender o sistema entérico como nosso “segundo cérebro” é um erro. Os argumentos neurobiológicos fornecidos por uma parte da comunidade científica são (por enquanto) discutíveis. Para outros, por outro lado, eles são sólidos o suficiente.

Seja como for, vale a pena mencionar um detalhe: esse conjunto de fibras nervosas não “pensa”, não apresenta nenhum processo cognitivo, mas sente. É sensível ao estresse, às emoções, e é capaz de regular múltiplas funções para mediar o nosso bem-estar.

O sistema entérico é, portanto, outro centro de comando essencial para a vida. Cuidemos bem dele.

Por A Mente é Maravilhosa

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